Este blog é direcionado a estudantes de teologia e pessoas envolvidas com trabalhos sociais. Além, de buscar ser uma fonte de inspiração para cristãos desejosos de viver plenamente sua espiritualidade.

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domingo, 16 de dezembro de 2012


ADVENTO
Eis que chegou novamente o Advento, o tempo de expectativa e do olhar projetado para o futuro. Advento: tempo dos desejos pequenos e desmedidos, dos desejos dramáticos de quem tem fome de pão e de justiça, de quem procura razões para viver, de quem, cansado da noite, gostaria de apressar o dia: “Despertai harpa e cítara, quero despertar a aurora! (SL 107,3).
Advento, tempo do teu desejo mas também do desejo de Deus sobre ti.
Do encontro dos dois desejos nasce a esperança.
O Advento fala-te de uma expectativa que se realizou no passado para te encorajar e te projetar no futuro. Fala-te de Deus que se fez menino para te ensinar a tornar-te Adulto no seu Reino.
Olha com admiração a humildade do teu Deus que retoma contigo, em Belém, a tua história, entrelaçando-a com a sua e com a dos teus irmãos.
O Advento revela-te a tua tarefa na aventura humana: ao lado de Deus podes fazer crescer a fraternidade dentro de ti, ao teu lado, no teu julgamento, em casa e na rua, no trabalho, na tua comunicação, na internet e nos blogs.
É uma tarefa sobre a qual se ouvem os anjos que garantem a “paz na terra aos homens amados por Deus”.
E se não é suficiente, eleva o teu olhar e observa a conclusão de tudo o que podes ver com os olhos e com a consciência: civilizações que se extinguem, estrelas que se apagam, sepulcros que se abrem, o universo que olha ansioso.
Vem o Senhor da vida sobre as nuvens do céu para dar vida, exaltar quem a tornou boa e bonita, quem se comprometeu  em dar esperança, semeando fraternidade: “Tive fome e deste-me de comer”.
Pier Giordano Cabra
 

MORTE ONDE ESTÁ  A TUA VITÓRIA?
A fonte da vida veio até nós, a fonte da vida morreu por nós. Não nos deixará sua vida aquele que nos fez o dom de sua morte? Eis a salvação que não se anula. Por que? Porque não termina.
A salvação veio a terra, mas encontrou aqui a nossa morte. Porventura, quando o Senhor Jesus Cristo veio, como homem, até nós, encontrou a salvação neste mundo? À semelhança de um mercador, veio de sua região e trouxe um grande bem; contudo, achou em nossa terra frutos abundantes.
Quais eram esses frutos? O nascimento e a morte. Deles a terra está cheia. Ele, portanto, nasceu e morreu.
De que modo veio ele? Veio à nossa região por um caminho desconhecido dos homens. Veio do céu, do seio do seu Pai; todavia, nasceu sujeito à morte. Nasceu pelo Espírito Santo, da Virgem Maria. Cristo nasceu pelo Espírito Santo da Virgem Maria. Cristo nasceu mortal, para nós, os mortais. Foi assim que veio o Salvador. Morreu, porém matou a morte, destruiu em si mesmo aquela que nos causava terror.
Onde está ó morte? Procurai a em Jesus Cristo; já não existe. Estava nele, mas nele morreu. Ó vida, morte da morte! Tende coragem: morrerá também em vós. O que foi iniciado na cabeçs há de prosseguir nos membros.
Também em nós a morte há de morre. Quando? No fim do mundo, na ressurreição dos mortos, na qual cremos com certeza. Quem crer e for batizado será salvo.
Escutai essas palavras de vitória que se repetirão quando não mais existir a morte, quando também em nós, como em nossas cabeça ela a tiver percebido. É preciso que se torne imperecível  o que é perecível em nós, diz São Paulo, e que o mortal se revista da imortalidade.
Então se realizará a palavra da Escritura: A morte foi tragada pela vitória. Será esta a salvação daquele que crer e for batizado. Amai e esperai a salvação eterna.
(Do Sermão 232, Pl 38) _ Santo Agostinho
 
 NÃO SOMOS NÓS QUE POSSUÍMOS A VERDADE MAS É ELA QUE NOS POSSUI
 
É a verdade que nos possui, é algo vivo! Não somos nós os seus possuídores, mas somos agarrados por ela." Essa é uma reflexão sobre a "arte de ser homens". Que consiste na certeza de que só é possivel "viver e morrer bem quando se recebeu a verdade e quando a verdade nos indica o caminho." A "verdade" conduz o homem a "ser homens de modo reto" e suscita "alegria e gratidão" no coração do crente.
No Deuteronômio vemos a "alegria da Lei": lei não como vínculo, como algo que nos tira a liberdade, mas como prenda e dom. Quando os outros povos olharem para este grande povo _ assim diz a leitura, assim diz Moisés _ então dirão: Que povo sábio! A dmiraremos a sabedoria deste povo, a equidade da Lei e a proximidade do Deus que está ao seu lado e que lhe responde quando é chamado. É esta a alegria humilde de Israel: receber um dom de Deus. Esta lei não foi ele mesmo que a fez, não é fruto da sua genialidade, é dom. Deus mostrou-lhe o que é o direito. Deus deu-lhe a sabedoria. A lei é sabedoria. Sabedoria é a arte de ser homem, a arte de poder viver bem e de poder morrer bem. E só se pode viver e morrer bem. E pode-se viver e morrer bem só quando se recebeu a verdade e quando se recebeu a verdade e quando a verdade nos indica o caminho. Estar gratos pelo dom que nós não inventámos, mas que nos foi dado em dom, e viver na sabedoria; aprender, graças ao dom de Deus, a ser homens de modo reto.
Com efeito, segundo a nossa fé, a Igreja é o Israel que se tornou universal no qual, através do Senhor, todos se tornam filhos de Abnraão; o Israel que se tornou universal, no qual persiste o núcleo essencial da lei, desprovido das contigências do tempo e do povo. Este núcleo essencial da lei, desprovido das contigências do tempo e do povo. Este núcleo é simplesmente o próprio Cristo, o amor de Deus por nós e o nosso amor por Ele e pelos homens. Ele é a Tora viva, é o dom de Deus por nós, no qual agora todos recebemos a sabedoria de Deus. No estar unidos a Cristo, no "com-caminhar" e no "com-viver" com Ele, nós mesmos aprendemos como ser homens de modo justro, recebemos a sabedoria que é verdade, sabemos viver e morrer, porque Ele mesmo é a vida e a verdade.
Se lemos hoje, por exemplo, na Carta de Tiago: "Sois gerados por meio de uma palavra de verdade"... Vem-nos imediatamente a pergunta: mas como se pode ter a verdade? Hoje, a ideia de verdade e de intolerância estão quase completamente fundidas entre si, e assim já não ousamos crer de modo algum na verdade ou falar da verdade. Parece que está distante, parece algo ao qual é melhor não recorrer. Ninguém pode dizer: tenho a verdade _ esta é a objeção que se faz _ e, justamente, ninguém pode ter a verdade. É a verdade que nos possui, é algo vivo! Nós não somos os seus dentetores, mas somos arrebatados por ela. Se nos deixarmos guiar e mover por ela, permaneceremos nela; se estivermos com ela e nela, se formos peregrinos da verdade, então ela estará em nós e por nós. Penso que devemos aprender de novo este "não-ter-a-verdade". Foi a verdade que veio a nós e nos impele.
Creio que estas palavras de São Tiago se diregem precisamente a nós como teólogos: não só ouvir, não apenas intelecto _ fazer, deixar-se formar pela verdade, deixar-se orientar por ela!
A Igreja pôs a palavra do Deuteronómio _ "Onde existe um povo cujo Deus está tão próximo, como o nosso Deus está próximo de nós, cada vez que o invocamos? Na Eucaristia isto tornou-se realidade plena. Sem dúvida, não é apenas um aspecto exterior: alguém pode estar próximo do tabernáculo e, ao mesmo tempo estar distante do Deus vivo. O que conta é a aproximidade interior! Deus tornou-se tão próximo de nós, que Ele mesmo é um homem: isto deve desconcertar-nos e surpreender sempre! Ele está tão próximo, que é um de nós. Conhece o ser humano, o "sabor" do ser humano; conhece-o a partir de dentro, provou-o com suas alegrias e os seus sofrimentos. Como homem, está próximo de mim, perto, "ao alcance da voz" _ tão próximo que me ouve e que posso saber: Ele ouve-me e responde-me, embora talvez não como eu o imagine. Deus está aqui, e ama-me, é a nossa salvação! Amém!
Hom. do Papa Bento XVI presidida em Castel Gandolfo
 

QUANDO O OUTRO É DEUS

QUANDO O OUTRO É DEUS
D. Bernard Buchould, osb ouv.
É evidente que, se a vida monástica, segundo a bela definição de Bento XVI no seu recente discurso no Colégio dos Benardinis, é uma arte de buscar a Deus e fazê-lo de modo a sermos encontrados por ele _ máxima programática para toda a vida cristã, segundo o Papa _ então  o primeiro Hóspede que eu sou chamado a acolher, é o próprio Deus, o Hóspede interior que, como a Abraão no carvalho de Mambré, se apresenta sem aviso prévio e sem nem mesmo revelar a sua identidade, ou ainda, este estrangeiro desconhecido que caminha com os dois discípulos que se separaram (do grupo) rumo a Emaús.
“Acolher o outro, quando o outro sou eu experimenta na própria carne a presença atuante de um Deus que está em nós, agindo por nós, em prol do encargo do serviço do Reino de Deus. Acolher o outro quando o outro sou eu,  é ter a consciência ou melhor desejar ser de fato parecido com o autor da própria vida, Deus.”[1]
Acolher o outro, quando o outro é o meu irmão mais próximo, baseia-se antes de tudo sobre um mútuo acolhimento entre  os irmãos que compõem a comunidade, os quais não se escolheram, mas reconhecem terem sido escolhidos e reunidos por um mesmo chamado, pelo desejo mesmo de Deus, no duplo sentido da expressão: o desejo que eu tenho de buscar a Deus e de encontrá-lo, e o desejo que Deus tem da minha felicidade, oferecendo-me este percurso de vida. “Isto requer segundo o espírito da Regra o bom zelo, a tolerância das próprias fraquezas e dos irmãos tanto do corpo como do caráter (RB72,5).”[2] A expressão, reforçada pelo superlativo, exprime bem a vontade tenaz que deve ser usada nesta “suportação”, no combate requerido pela caridade fraterna... Este combate, amiúde, se dá nas pequenas coisas, quando devo aceitar uma diferença concreta no temperamento, num traço do caráter...  Acolher o outro, o hóspede de passagem atrai ainda mais a atenção de São Bento sobre esta presença de Cristo no hóspede. Bento  é consciente, “desta  presença Cristocêntrica na pessoa do outro, o hospede”[3] , por isso envolve a hospitalidade com um certo número de gestos quase sacramentais_ lavar as mãos e os pés dos hóspedes_ da parte do Abade  e de toda a comunidade. São Bento chega até a pedir aos monges um ato de adoração, no sentido bíblico: “Nesta mesma saudação mostre-se toda a humildade. Em todos os hóspedes que chegam e que saem, adore-se o Cristo que é recebido na pessoa deles. O outro traz o Cristo para nós, mesmo sem estar consciente disso. Portanto, eu sou como o meu hóspede, um buscador de Deus que é totalmente outro e inteiramente próximo. Também o hóspede é habitado por esta Presença misteriosa, portador da mesma Face divina; é nesta Presença que nós podemos nos encontrar verdadeiramente  e acolhermo-nos uns aos outros. “Acolher o outro, acolho em mim o próprio Cristo”.[4]